
Nos últimos dias estive a ler (pela 3ª vez), um dos livros que trouxe comigo de Cabo Verde. Trata-se da obra "Terra da Promissão", da autoria de António Aurélio Gonçalves.
Gostaria que essa fosse a primeira vez. É que acabo por adivinhar (ou me lembrar) como as estórias do livro vão terminar. Incrível a quantidade de informação que a nossa memória consegue armazenar. E durante muito tempo, diga-se. Penso que é a terceira vez em que leio o livro. Sempre com intervalos enormes entre essas leituras.
Quando leio obras do tipo, faz-me lembrar a minha professora de português, a D. Manuela Afonso. Tinhamos uma espécie de "clube" de leitura na classe. Mas diga-se, era-se obrigado a ler as obras que circulavam no "clube", sob pena de ter um menos (-) na caderneta de aproveitamento escolar.Eu, devorava essas obras. E não devo ter tido pontos negativos na minha caderneta, durante a existência desse "clube".
Foi dessa forma que li Famintos, Contra Mar e Vento, etc. Embora algumas dessas obras que circulavam pelo "clube", já as havia lido algures. Ou requisitado nas bibliotecas, ou algumas até provenientes da pequena "biblioteca" que o meu pai tinha em Casa. Tenho até aqui em Rotterdam, um dos livros da colecção do meu pai (Não lhe digam.Hehehehe).
Essa humilde biblioteca (mas com títulos variados) ensinou-me muita coisa. Tinhamos um dicionário Lello Ilustrado. Passava horas com o dito cujo. Eu ia a procura do significado de uma palavra e acabava por me mergulhar no dicionário. Sim, lembro-me que as ilustrações e explicações detalhadas desse dicionário me prendiam e transportavam para outra parte.
Lembro-me de ler lido "Testemunho de um Combatente", e também "A Guerrilha de Che" (Regis Debray). Li também "Torturas em Nome do Partido Único" (esse foi muito pesado para mim na altura. Não quis acreditar no que lia), entre outros títulos. São tantos os livros que já li desde a altura, e poucos em relação aos que quero ler, que nem me lembro de todos.
Voltando ao que acabei de ler, "Terra da Promissão" do António Aurélio Gonçalves, trata-se de um excelente livro. Para mim! Não sou critico da escrita, apenas um leitor. E digo-vos. Este novelista é "brob pa fronta" (na linguagem da minha geração). Até dá vontade de ler uma (imaginação minha) Terra da Promissão 2.
O hábito da leitura em Cabo Verde é um dos "handicaps" da nossa juventude. Por isso, não estranho que os mais velhos se exibam todos, e pensem que eles é que são os sabichões. Sim, muitos deles não querem "passar a tocha" (passar o testemunho)aos mais jovens. E o resto é tudo incompetentes e analfabetos (na óptica deles). Não posso culpa-los de todo. Realmente, os jovens não lêm muito (só "tio patinhas" e internet).
E isso é "batota" para os mais velhos. É que eles aprendiam tudo nos livros. E agora anda-se a ensinar tudo no Youtube. Ninguém quer saber de livros, pensam eles. Na verdade têm uma certa razão. Não se pode ler António Aurélio Gonçalves e companhia, online (penso). Mas, como dizemos em crioulo " no ta bai no ta bem". Alguns conhecimentos, por exemplo técnicos, são assimilados de forma mais rápida num video do que num livro.
Em dois anos, aprendi aspectos sobre o audio que provavelmente nunca ia aprender se não me tivesse libertado do domínio da T'lecom e dos exploradores do sector das telecomunicações no pais.
No final, agradeço a humilde biblioteca do meu pai, em nossa antiga casa em Ribeira Bote. E também da mesma forma, dou graças (estou a pensar a quem devo dar graças por esta parte. Bom...) pelo serviço rápido de internet (54 Mbps) que temos em casa, aqui em Rotterdam.